Estudo revela truques da indústria farmacêutica para manipular resultados

95% dos testes de remédios em ratinhos não podem ser validados. E 89% das descrições de testes avaliadas por comitês de ética vão sem referências bibliográficas.




Quando um remédio em fase experimental já está funcionando bem em cobaias, o próximo passo é testá-lo em seres humanos. Antes, porém, os autores da pesquisa precisam montar um relatório e apresentá-lo a um comitê de ética. É um calhamaço de respeito, com todos os detalhes possíveis e imagináveis sobre as condições em que as drogas foram ministradas nos animais e a maneira como eles reagiram. Questão de segurança. Voluntários só podem entrar no laboratório depois da aprovação desses papéis, chamados investigator brochures (IBs).

Parece um sistema bem confiável, a julgar pela descrição acima. Mas há mil maneiras de passar por cima dele. Um artigo da Escola de Medicina de Hannover, na Alemanha, publicado no último dia 5, passou a limpo 109 IBs entregues para análise entre 2010 e 2016. Eles continham, ao todo, 708 testes de eficácia pré-clínicos – o nome bonito e complicado para os experimentos feitos com tecidos de camundongos brancos antes de partir para o Homo sapiens.

Outra coisa que eles continham era sujeira. 95% dos 708 testes não mencionavam informações extremamente importantes para verificar a validade de um experimento, como o método usado para calcular o número de cobaias, ou se os pesquisadores sabiam ou não quais camundongos estavam saudáveis e doentes na hora do teste – o ideal é que não saibam, para que tudo ocorra em igualdade de condições. Esses exemplos estão bem simplificados, mas o espírito da coisa é: para um experimento científico passar pela revisão, ele deve ser montado de forma a representar a realidade da melhor maneira possível e tratar todos os participantes sem distinções.

Além disso, 89% das descrições de testes não estavam acompanhados de uma referência bibliográfica para o artigo científico em que foram registrados originalmente, e 82% dos testes deram resultados positivos – uma taxa de sucesso tão alta que só pode estar errada: é provável que, em muitos casos, os resultados negativos tenham sido omitidos por conveniência. Ou, nas palavras dos autores da análise, “os raríssimos registros de medicamentos que não tiveram efeito nenhum causam preocupação de que o planejamento dos estudos esteja errado ou haja viés na hora de relatá-los.”

Na lista de assuntos que dão ótimas teorias da conspiração, a indústria farmacêutica só não é páreo para as linhas de Nazca e o ET de Varginha. A diferença é que alienígenas muito provavelmente não visitaram nem o Peru nem Minas Gerais. Já o mundo dos testes clínicos está de fato sujeito à manipulação e ao dinheiro, e esse artigo recém-publicado não é o primeiro nem será o último a constatar isso.

Na rabeira da nova pesquisa, o médico nefrologista (e estrela do Medium) Jason Fung postou um textão em que relembra estatísticas assustadoras de outros anos. Por exemplo: um estudo de 2010 revelou que testes de novos medicamentos que foram financiados pelo setor privado dão resultados positivos em 85,9% das vezes – contra os 50% dos financiados pelo setor público. Em outras palavras, quando há interesse em aprovar um medicamento para vendê-lo, magicamente ele se torna mais eficiente no laboratório. Coincidência? Parece que não..

Por Bruno Vaiano

access_time 13 abr 2018, 18h19

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