Ter irmãos é uma experiência que enriquece, não somente no período de desenvolvimento como durante toda a vida. Não obstante, é natural haver rivalidades entre eles.
As brigas são muito comuns e dificilmente, nao alteram a calma do ambiente familiar. Mesmo as discussões são proveitosas, fazendo parte da troca de experiências positivas e negativas, que acabam influindo no aprendizado e acelerando seu ritmo.
Quanto maior o número de irmãos na família, mais ricas são as vivências. Sabendo o quanto um irmão proporciona a outro é que se utiliza a expressão: “Você é como um irmão para mim”. Este é o maior elogio que pode ser feito a alguém, expressando seu enorme afeto. Também por isso é que se usa a palavra “fraternidade” para designar harmonia, paz e boa vontade no convívio.
Entretanto, nem tudo são rosas. Não se pode deixar de lembrar a ocorrência de graves problemas de ordem fraterna, como os citados no Velho Testamento, começando pela conhecida história de Catita e Abel. Deixemos, porém, os casos extremos. O importante é pensar nos problemas que mais comumente aparecem, sem pessimismos ou otimismos exacerbados.
Assim como os primeiros anos são vitais para o futuro da criança, também o relacionamento familiar inicial poderá marcar para sempre a vida adulta. Não podemos acabar com a rivalidade fraterna, mas sim contorná-la de modo útil.
Há famílias em que a rivalidade fraterna não aparece: país e filhos estabelecem laços tão fortes entre si que a própria individualidade fica relegada a segundo plano. Um irmão nada consegue decidir sem o outro, porque não houve espaço para a formação de cada um. Por causa da fraqueza de suas personalidades, não conseguem agir sozinhos.
Para que isso não aconteça, é preciso que os pais permitam que seus filhos se expressem, propiciem sua independência e deixem que cada um mostre seus próprios interesses, O único inconveniente é que esse tipo de estrutura familiar dá margem à rivalidade fraterna.
Para minimizar essa rivalidade, cada filho necessita de estímulo e de apoio de diversos modos, sentindo-se amado como é, mesmo dentro de suas limitações, para que suas forças se libertem, e esforçando-se para produzir e agir da melhor forma possível.
Livro Pesquisado: Psicologia Infantil de Fernanda Parolari Novello
Segundo o entenimento de Tânia Zagury, psicologa estudiosa e pesquisadora dos afetos presentes nas relaçoes failiares, o ciume entre irmaos, é uma grande oportunidade de desenvolvimento e evoluçao. Leia abaixo trechos de seu artigo publicado no livro Educar Sem Culpa - A gênese da Ética
O que fazer quando o ciúme entre irmãos é evidente?
Como agir quando, tendo um irmãozinho mais novo, mesmo dando muita atenção e carinho, a criança continua rebelde e agressiva?
Em primeiro lugar, é preciso saber que é comum que exista o ciúme entre irmãos. Para grande alívio dos pais, o ciúme, evidente ou recalcado, é natural. Por melhor que os tratemos com a maior igualdade.
Por quê? Perguntam-se angustiados os pais diante das agressões verbais ou físicas entre seus filhos. “Parecem inimigos”. Sentem uma espécie de dor moral quando presenciam os filhos “atracados”. Os pais se sentem em debito em passar convenientemente, a noção de família — conjunto de seres que se amam, se defendem, se protegem (pelo menos idealmente).
Para melhor compreender o porquê da questão, pensemos o seguinte: quem são as pessoas mais importantes na vida de uma criança? O pai e a mãe. Eles são a primeira fonte de amor, segurança, atenção, comida, calor. É deles que advém tudo de que eles precisam para sua sobrevivência.. E o instinto da sobrevivência é dos mais fortes. Todo primeiro filho é, por algum tempo (pelo menos por nove, dez meses), filho único. Tem a mãe e o pai só para si. Tudo que faz é visto, analisado, aplaudido ... Aí, de repente, lhe chegam a mamãe e o papai comunicando a chegada de um irmãozinho. Ele talvez nem saiba ainda direito o que é isso —irmãozinho—, mas só pelo jeito como lhe foi comunicado, já sente perigo no ar...
Quando o nenê chega, então finalmente ele compreende que suas proprias apreensões. Afinal, chegam todos, desde os pais, avós até a empregada, as visitas, os parentes, os amigos em bandos para olhar, presentear, agradar, elogiar... A ELE!
Por mais cuidado que tenhamos, o fato é que a chegada de um bebê muda radicalmente a rotina da casa e, conseqüentemente, do primogênito também. Sem saber bem explicar,ele se sente inseguro. TENHA OU NÃO MOTIVOS REAIS PARA ISSO.
Quem tem ciúme sempre descobre uma nova perspectiva que o justifique. O caçula sente-se preterido porque “tudo é para o mais velho”, o do meio acha que nem é o mais velho nem o caçula, e assim sucessivamente. O que fazer então?
Primeiro, INTERI0RIZAR QUE O CIÚME EXISTE.
Segundo, entender que esse ciúme, mesmo quando não-revelado, é NORMAL e, antes de tudo, É UMA APRENDIZAGEM importantíssima na vida dos filhos.
Terceiro, PARAR DE PROBLEMATIZAR EXAGERADAMENTE cada vez que o sentimento se manifesta.
Quarto, adotar uma atitude tranqüila em relação a isso, compreendendo que o filho, através do ciúme, estará APRENDENDO A CONVIVER, A DIVIDIR, A NÃO QUERER SER SEMPRE O ÚNICO NA VIDA DAS PESSOAS.
Quando os pais, percebendo o ciúme, ficam muito mobilizados, encarando como um fracasso pessoal seu, então a ansiedade toma lugar. Em vez de ajudara criança a superar sua dificuldade, acabam misturando os seus sentimentos aos dela e piorando tudo. É como se eles se sentissem devedores do filho por ter tido outro nenê.
Para nossa tranqüilidade e conforto emocional, é preciso TRATAR COM IGUALDADE E JUSTIÇA TODOS OS FILHOS. Não superproteger algum em detrimento de outros. Nos casos de diferença de idade, devemos evitar que os menores se prevaleçam disso. Ou vice-versa.
Não é muito raro os pais sentirem maior identificação ou simpatia por um dos filhos — o motivo alegado pouco importa (“é mais parecido comigo”, “é mais obediente”, “me ajuda tanto”...). Mesmo que seja difícil, devemos evitar as preferências: declaradas ou disfarçadas, os filhos as percebem. O tratamento privilegiado é uma das maiores fontes de ressentimentos; é um motivo real e concreto de ciúme entre irmãos e muita amargura nas relações. Não é bom nem para o mais amado, que não escolheu essa posição privilegiada, nem para o que se sente, com razão no caso, desprezado ou diminuído. Esse tipo de atitude dos pais pode conduzir a um entrave permanente no relacionamento entre os irmãos. Pode, inclusive, inviabilizar qualquer amizade entre eles.
Esse princípio da igualdade de tratamento às vezes não é imediatamente percebido pelas crianças, sobretudo quando estão tomadas pelo ciúme. Nesses casos, é comum haver distorções na percepção. A criança acha de fato que não tem o mesmo tratamento que os irmãos. O que importa é que nós, pais, saibamos que somos justos. Se não sempre, o mais das vezes.., Afinal, não somos infalíveis. Ter consciência de que fizemos o melhor é a chave para a nossa tranqüilidade presente e futura. Porque, quer queiramos ou não, nossos filhos só serão amigos e se darão bem se assim tiver que ser. Nunca poderemos afirmar com segurança como será a relação deles no futuro. Então, façamos bem a nossa parte.
Outra coisa fundamental é AGIR DE FORMA A PROTEGER UNS DOS OUTROS. Para quem não tem filhos, pode parecer estranho ou exagerado, mas, para quem os cria ou criou, nada mais real. Quando muito pequenos, além de não saberem medir exatamente as conseqüências de seus atos, também não dominam o tamanho das emoções. Cabe aos pais evitar que, devido a essas limitações, as crianças se machuquem umas às outras. Não significa impedir que o ciúme se manifeste, mas que haja um limite, que não pode ser ultrapassado. Revelar os sentimentos é saudável para as crianças, porque as defronta consigo próprias e permite-lhes elaborá-lo. O que não se deve permitir é que se façam coisas que poderiam redundar em prejuízo tanto para o agredido quanto para o agressor. Os pais devem procurar avaliar se não estão interferindo desnecessariamente na relação das crianças, por uma questão pessoal, de não suportarem encarar esses sentimentos sempre visto de forma negativa na nossa sociedade. Pensando de forma mais objetiva, mais natural, terão apenas a tarefa de evitar confrontações físicas ou desrespeitos verbais que possam magoar e, conseqüentemente, açular de forma irremediável a relação.
Livro: Educar Sem Culpa - A gênese da Ética de Tânia Zagury |